‘Vladiminions’ acadêmicos condenam imperialismo americano, mas veem Putin como messias

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Guerra da Ucrânia acentuou posicionamentos marcados por ‘dois pesos e duas medidas’ em frações do meio universitário*

Vicente Ferraro
Mestre em ciência política pela Escola Superior de Economia de Moscou e doutorando na USP.
[RESUMO] Avaliações maniqueístas e inconsistentes proliferam sobre a invasão russa à Ucrânia, como as tentativas de justificar os atos de Putin manipulando fatos sobre a atuação da Otan e a política no Leste Europeu, por parcelas do meio acadêmico.


Desde o início da invasão russa à Ucrânia, temos visto muitas avaliações com base em julgamentos maniqueístas e estereótipos anacrônicos. Em um lado, há posicionamentos russofóbicos e uma romantização das lideranças ocidentais e ucranianas, ignorando suas políticas controversas; no outro, há uma tentativa de justificar moralmente a invasão russa, manipulando arbitrariamente os fatos. Há diversas inconsistências nas principais justificativas russas para a guerra, em especial a expansão da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Ainda que essas queixas possam ser legítimas, a opção pela invasão só levou ao fortalecimento da aliança.

Diversos analistas avaliaram a invasão como uma estratégia para a Rússia assegurar o equilíbrio de poder no Leste Europeu e garantir a segurança das suas fronteiras frente a tentativas do Ocidente de isolá-la militarmente. Alguns elementos colocam em dúvida a centralidade dessa motivação.

A maneira como a Rússia expôs suas reivindicações levanta dúvidas se o país realmente tinha a intenção de discutir o status não alinhado da Ucrânia. Em nenhum momento, Moscou apresentou um ultimato à Ucrânia. Pelo contrário, reiterou em diversas ocasiões que não pretendia iniciar nenhum ataque e que os alardes não passavam de uma “histeria” no Ocidente. Também apresentou reivindicações que não dependiam da Ucrânia e que, obviamente, não seriam atendidas, como o recuo da Otan em outros países do Leste Europeu. Apesar das relações intensas com a aliança ocidental (com treinamentos e armamento), não há evidências de que, pelo menos a curto prazo, a Ucrânia tivesse chances reais de entrar na Otan –entrada que vem sendo reivindicada por parte de suas elites desde o início dos anos 2000. A partir da crise de 2014, o discurso pró-aliança ganhou destaque como recurso de segurança, sob a justificativa de que a neutralidade militar não foi suficiente para impedir a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 e a interferência russa no Donbass. No entanto, dificilmente os 30 países da Otan consentiriam em admitir a adesão de um Estado envolvido em um conflito indireto com a Rússia, já que, pelas regras da aliança, um eventual ataque contra a Ucrânia forçaria todos os países a entrar em guerra contra uma potência nuclear.

Não há indícios de que os poucos ganhos russos no front geopolítico, como inibir a remota chance da Ucrânia ingressar na Otan ou a incorporação de novos territórios, poderão compensar elevadas perdas nos fronts econômico, reputacional e geopolítico. Já era esperado que uma invasão, em vez de afastar a Otan das fronteiras russas, levaria a uma militarização e a uma presença ainda maior da aliança no Leste Europeu.

O Ocidente, fragmentado sob Trump, voltou a se unir, promovendo uma ação coletiva sem precedentes. Já há uma busca por fontes alternativas de energia na Europa para substituir a dependência da importação do gás russo.

A disposição e o potencial da China em amortecer esse impacto são ainda uma incógnita. Há um interesse pragmático de Pequim em se aproximar de Moscou para fazer frente ao Ocidente. Ao mesmo tempo, os vínculos econômicos com países ocidentais são muito maiores, e empresas chinesas podem sofrer os efeitos colaterais das sanções por comercializarem com a Rússia. Contrariamente à ambição de autonomia como potência global, a Rússia pode vir a se tornar ainda mais dependente da China. EUA, Otan e China são os grandes ganhadores desse conflito até o momento.

Se a expansão da Otan no pós-Guerra Fria representou uma ação provocadora dos EUA, a atual agressão russa conferiu uma razão de ser para a aliança. Países do Leste Europeu hoje percebem a aliança como condição necessária à sua segurança. Outros Estados com histórico de neutralidade, como a Finlândia e a Suécia, manifestaram a intenção de ingressar na Otan. O argumento anacrônico da “ameaça russa”, que impulsionou a aliança na Guerra Fria, ganhou sobrevida. A Rússia poderia ter recorrido a instrumentos de pressão (econômicos e militares) mais eficazes.

Dois outros argumentos muito mobilizados pelo Kremlin correspondem mais a justificativas morais e ideológicas para a intervenção que a reais interesses russos.

O primeiro é a “desnazificação” da Ucrânia. Embora os vínculos de grupos neonazistas com estruturas estatais sejam um problema sério no país, não há evidências de que tais grupos contem com grande adesão na sociedade ucraniana –e o próprio Estado russo tem vínculos controversos com grupos políticos ultranacionalistas e (para)militares no seu território e no exterior.

Alguns críticos do Kremlin, inclusive, comparam o regime de Putin com o fascismo (usam os termos “Rashizm” e “rashistas”), em referência a características como o nacionalismo, o autoritarismo, o uso maciço de propaganda estatal e do serviço secreto e o culto à imagem do líder. Também fazem analogias da atual invasão russa com estratégias nazistas, como a anexação territorial sob pretextos étnicos, o uso da blitzkrieg e o cerco de grandes cidades.

O segundo é a questão do “genocídio” da população do Donbass e a ameaça à população de etnia e língua russa na Ucrânia. A guerra no Donbass já dura oito anos, e seu momento mais intenso foi a fase inicial (2014 e 2015). É uma incógnita por que a Rússia decidiu agir abertamente somente em um momento de menor tensão.

O conflito deixou mais de 2,6 milhões de deslocados e refugiados e 14 mil mortos, dos quais mais de 3.000 são civis. Grupos ultranacionalistas, com histórico de violação de direitos humanos, atuaram em ambos os lados. A atuação das autoridades ucranianas, fechando os olhos para as violações, afastaram as chances de reintegração do Donbass.

Por outro lado, há inconsistências na moralidade do Kremlin. A guerra de Putin que levou à derrota dos separatistas chechenos ocasionou dezenas de milhares de vítimas civis. Embora a Rússia utilize o argumento humanitário para legitimar a invasão atual, informes da ONU relatam mais de 3.300 civis mortos na guerra. Autoridades ucranianas citam números de mortes muito maiores e acusam a Rússia de cometer extermínios de civis.

Em 2014, houve episódios de violência étnica e política na Ucrânia, não solucionados até hoje, mas o argumento de que as populações russas e russófonas do leste sofrem discriminação ou opressão sistemática por parte do Estado carece de evidências.

O leste russófono é uma das regiões de maior resistência à invasão. Desde 2014, as atitudes pró-Rússia vêm caindo significativamente, o que reflete como conflitos têm o potencial de impactar identidades. Indiretamente, Putin está contribuindo para que a Ucrânia alcance uma coesão nacional, superando a polarização entre um leste pró-Rússia e um oeste pró-Ocidente do período pós-soviético.

OS VERDADEIROS GANHOS DE VLADIMIR PUTIN

A ação russa teve, até o momento, efeitos contrários aos pretensamente almejados e causou um profundo impacto humanitário que, certamente, distanciará a Ucrânia da Rússia, com traumas e ressentimentos de longo prazo. Quais seriam, então, os principais ganhos de Putin, além de avançar em seu projeto ideológico de desmantelamento do Estado ucraniano, anexação territorial e manutenção da hegemonia regional com base na força? A meu ver, a legitimação de seu regime ocupa papel de destaque.

Os grandes picos de popularidade de Putin ocorreram exatamente em períodos de beligerância, como a Segunda Guerra da Chechênia (1999-2000), a guerra da Geórgia (2008) e a crise da Ucrânia (2014). A intervenção atual não tem sido diferente, embora seja necessário ter cautela com os riscos de viés em pesquisas de opinião conduzidas em contextos autoritários.

Regimes autoritários se sustentam com mecanismos de repressão, distribuição de ganhos econômicos e recursos ideológicos. Putin não tem conseguido manter, nesta década, os mesmos ganhos dos anos 2000, e a instabilidade em regimes vizinhos, como Belarus e Cazaquistão, trouxe insegurança às elites russas.

Não à toa, os mecanismos de repressão vêm sendo endurecidos, como indica a expansão da legislação de combate ao extremismo para cercear jornalistas e a oposição. A sobrevivência do regime também é uma preocupação da realpolitik, com efeitos mais tangíveis e imediatos que a própria ameaça da Otan.

A confrontação com o Ocidente propicia um importante pilar ideológico para o regime, corroborando nacionalismos e discursos como o do conflito entre “valores russos tradicionais” e “valores liberais ocidentais decadentes” e entre a “democracia russa soberana” e a “democracia liberal ocidental”.

A ala militarista dos círculos próximos a Putin se fortalece política e ideologicamente. Putin precisa do Ocidente e de inimigos, reais ou imaginários, para justificar o seu autoritarismo e a “autopurificação” da sociedade contra a “escória” e os “traidores”.

O cancelamento cultural e as pesadas sanções impostas à sociedade russa, por sua vez, dão ímpeto ao argumento de que a Rússia é cercada de inimigos querendo sufocá-la. O Ocidente está dando sua contribuição para esse discurso ao não distinguir o povo russo de seu déspota.

Ainda não está nítido se a Ucrânia seguirá o mesmo caminho da Rússia, utilizando conflitos como pretexto para fechar o regime e promover discursos nacionalistas. Desde 2014, partidos de oposição, rádios e canais com conteúdo considerado pró-Rússia foram banidos e acusados de traição.

Os limites da democracia “defensiva” podem facilmente se confundir com o autoritarismo. A guerra de Putin dá força ao chauvinismo em ambos os países.

AS CONTRADIÇÕES NA ACADEMIA BRASILEIRA

Putin conseguiu o feito de unificar partes da esquerda e da direita no Brasil. A guerra acentuou posicionamentos marcados por “dois pesos e duas medidas” também em frações da academia brasileira, que condenam o imperialismo americano e justificam o russo.

O fato de os EUA terem cometido inúmeras atrocidades não implica na necessidade de defender as violações do direito internacional pela Rússia simplesmente em razão de seu antagonismo ao Ocidente.

Alguns acadêmicos, de diferentes disciplinas de ciências humanas, condenaram a invasão do Iraque pelos EUA e agora consentem com a invasão russa, comprando cegamente a propaganda do Kremlin. Incomodam-se com a expansão imperialista da Otan no Leste Europeu, mas pouco questionam por que a Ucrânia almeja entrar na aliança –o que o povo ucraniano pensa, aliás, é recorrentemente ignorado.

Consideram protestos populares contra o imperialismo norte-americano legítimos, mas manifestações contra o imperialismo de Putin são tratados como “marionetes” do Ocidente.

Muitos participaram dos atos contra Jair Bolsonaro e em defesa da democracia e criticam a ditadura militar, mas levantam a bandeira de um líder autoritário, militarista, com pautas antiprogressistas e um amplo histórico de violações de direitos humanos e repressão a jornalistas, opositores e acadêmicos.

Como “vladiminions”, veem Putin como um líder infalível, sempre assertivo na realpolitik, o consideram o messias da “nova ordem mundial” –mesmo que suas decisões recentes só tenham até o momento fortalecido a Otan, prejudicado a Rússia e causado uma catástrofe humanitária– e defendem o multi-imperialismo travestido de “multipolaridade”.

Há ainda os acadêmicos que alegam, sob os auspícios do relativismo cultural, a impossibilidade de a Rússia se tornar uma potência econômica e militar altiva pelo caminho da democracia em benefício de uma ordem multipolar equilibrada. Nenhum país nasceu democrático. Putin busca difundir o argumento de que, sem ele, a Rússia está fadada ao caos dos anos 1990 e de que aqueles que são contra suas decisões autoritárias são “traidores” e “russofóbicos”.

Contudo, a história um dia poderá mostrar que a russofobia pode estar naqueles que o apoiam cegamente, acreditando que um país com 146 milhões de habitantes e uma vasta contribuição cultural e científica para a humanidade só pode alcançar o desenvolvimento sob o arcabouço do seu despotismo.

 

*Artigo de opinião publicado no jornal Folha de São Paulo.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2022/05/vladiminions-academicos-condenam-imperialismo-americano-mas-veem-putin-como-messias.shtml

Foto: Folha de São Paulo

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