Na faixa de fronteira, um exemplo de cidade que saiu da ilegalidade e passou a ser indutora do turismo

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Quem se lembra de Foz do Iguaçu (PR) na década de 1990 e início dos anos 2000 hoje a encontra completamente diferente. As práticas de contrabando, descaminho, tráfico de drogas e armas dominavam a economia local. O saldo para a cidade não era positivo: uma cadeia de criminalidade se fazia presente em Foz do Iguaçu, que era recordista em assassinatos, roubos e demais crimes. Além da falta de geração de empregos formais, esta imagem negativa da cidade contribuía para afastar turistas. Um verdadeiro contrassenso: em um espaço geográfico que naturalmente já é privilegiado pelas paisagens, pelas Cataratas do Iguaçu, pela localização geográfica trinacional e por sediar a maior usina hidrelétrica do mundo em geração de energia, dentre tantas outras atratividades.

A Foz do Iguaçu da atualidade é visualmente mais limpa, menos violenta, gera mais empregos formais e aprendeu a respeitar e enxergar toda a riqueza que tem a sua diversidade cultural e a sua localização geográfica transfronteiriça.

Que fatores possibilitaram essa mudança de perfil? Como foi possível superar grande parte dos problemas gerados pelos movimentos fronteiriços e dar luz às potencialidades da cidade? De forma bastante resumida, uma combinação de fatores – organizados ou não – foram determinantes. A Receita Federal, por meio da Alfândega de Foz do Iguaçu e integrada às demais forças de segurança, endureceu a fiscalização para combater os ilícitos de fronteira. No final da década de 1990 e início dos anos 2000, houve grandes operações e até a extinção dos chamados comboios, ônibus com sacoleiros que passavam pela cidade em direção ao Paraguai para fazer compras. Há registros de 400 ônibus enfileirados pela rodovia. Ao referir-se a esta época, Luciano Stremel Barros, Presidente do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (IDESF), comenta: “O que as pessoas não entendiam é que desenvolvimento econômico sustentável não se cria em meio à ilegalidade. Além de todos os aspectos sociais, o Estado é beneficiado pela maior arrecadação tributária do ICMS e o município também arrecada mais ISS, o que aumenta as capacidades de investimentos, que beneficiarão diretamente os munícipes”.
Foi um período tão conturbado que fatos pitorescos foram registrados. Havia movimentos na cidade contrários à fiscalização realizada pelas forças de segurança. Em novembro de 2001, por exemplo, a Câmara de vereadores de Foz do Iguaçu aprovou em sessão conceder o título de “persona non grata” ao ex-delegado da Receita Federal, Mauro de Brito, que atuou fortemente na fiscalização e nas operações de combate às atividades ilícitas. Em março de 2006, outro delegado da RF, José Carlos de Araújo, também recebeu o título.

A extinção dos comboios de ônibus foi simbólica para marcar o fim da “era dos sacoleiros” que passavam por Foz do Iguaçu.

Esta mudança de perfil foi consolidada por meio de uma série de outras ações construídas ao longo do tempo. Além da atuação dos segmentos públicos e privados, a Usina de Itaipu, desde esta época e até os dias atuais, tem sido determinante para o desenvolvimento de Foz do Iguaçu e de toda a região trinacional. Gilmar Piolla, ex-secretário de turismo e ex-superintendente de comunicação social da Itaipu, que também acumulava a pasta da superintendência de turismo, relembra: “Com o fim do turismo dos sacoleiros, a cidade estava descapitalizada e desmotivada. Uma das missões foi fazer Itaipu se integrar ao turismo de Foz e, na época, trabalhamos para criar uma agenda positiva de mídia espontânea, disponibilizar recursos para campanhas publicitárias do destino Iguaçu, aumentar o tempo de permanência do turista na cidade e também atuamos na criação da gestão integrada, quando reunimos entes de diversas organizações ligadas ao turismo para fortalecer as ações de divulgação e governança do turismo”.
Neste trabalho conjunto, Piolla também destacou a criação do Fundo de Desenvolvimento e Promoção Turística do Iguaçu, o Fundo Iguaçu, em 2009, em que, dentre as atividades, realizou a elaboração de projetos como revisão do Plano Diretor e nova pista do aeroporto, duplicação da Rodovia das Cataratas, revitalização da Ponte da Amizade, dentre outros, além de encaminhamentos relacionados a licenciamento ambiental e articulações junto ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), todos pertinentes a tais projetos.

Ano a ano, o número de visitantes foi aumentando. Segundo dados da Secretaria Municipal de turismo e projetos estratégicos da cidade, em 2018 Foz do Iguaçu alcançou a marca de mais de 3 milhões de turistas. Em 2019, as Cataratas do Iguaçu bateram recorde de visitação: mais de 2 milhões de pessoas no principal atrativo da cidade. Números bem diferentes da década de 1990. De acordo com os registros da Paraná Turismo, de 1992 a 2004 a visitação das Cataratas do Iguaçu não passava da média de 800 mil turistas por ano. Foi a partir de 2005 que o atrativo atingiu a marca de mais de 1 milhão visitantes, sempre crescente (até 2019, período anterior à pandemia da Covid-19).

Os números da hotelaria também são interessantes. Os dados do Sindicato de hotéis, restaurantes, bares e similares de Foz do Iguaçu (Sindhotéis) mostram que, em 1992, havia 12.455 leitos nos meios de hospedagem. No ano de 2014, mais de 27 mil leitos. E, os dados de 2019 da Secretaria de Turismo indicam mais de 30 mil leitos. Com relação ao tempo de permanência dos turistas, 3,5 dias. Assim, desenhou-se um cenário de prosperidade. A imagem positiva da cidade, o marketing do destino, mais conectividade aérea, investimentos públicos e privados atraíram investidores.
Dentre estes, a Gramado Parks, empresa de entretenimento e hospitalidade nascida na Serra Gaúcha, que inaugurou em dezembro de 2021 uma roda-gigante próxima ao Marco das Três Fronteiras. O investimento da empresa em Foz do Iguaçu é de cerca de R$ 200 milhões, valor que engloba o projeto da roda-gigante e de um resort, o Aquan, que está em construção e tem previsão de inauguração em 2023. Para Fábio Bordin, VP de Implantação da Gramado Parks, Foz do Iguaçu é de fundamental importância para o portfólio do grupo. “São milhares de pessoas por ano que visitam o destino, o colocando como indutor do turismo no Sul do Brasil. Uma cidade que vem crescendo ano a ano com novas atrações de entretenimento e hospitalidade, que possui uma das maravilhas do mundo – as Cataratas do Iguaçu – e a maior hidrelétrica do Brasil, sendo o destino certo para famílias contemplarem a natureza e fazerem compras, além de aproveitarem para relaxar e ter experiências gastronômicas”.

A Gramado Parks, empresa de entretenimento e hospitalidade, investiu cerca de R$ 200 milhões em Foz do Iguaçu, valor que engloba o projeto da roda-gigante, atrativo inaugurado em dezembro de 2021, e ainda um resort, com previsão de término em 2023.
Foto: Gramado Parks

Jin Bruno da Rosa Petrycoski, Diretor do atrativo turístico Movie Cars Entertainment,
destacou que o grupo escolheu Foz do Iguaçu para investir pelo potencial de crescimento. “Por mais que já esteja consolidado no radar nacional e internacional, era uma localização que não possuía muitos atrativos turísticos implantados, então poderíamos desenvolver um complexo com várias atrações e que prosperava a médio e longo prazo. Também enxergamos Foz como um bom local para inaugurar nosso parque. A cidade também passa por investimentos em infraestrutura. Acreditamos no destino, achamos que o potencial ainda está longe de ter sido explorado na sua totalidade”.

Segundo a diretoria do Movie Cars Entertainment, o grupo escolheu Foz do Iguaçu para investir pelo potencial de crescimento.
Foto: Movie Cars Entertainment

Outro atrativo previsto para ser inaugurado em 2024 é o Aquafoz, gerido pelo Grupo Cataratas, cujos investimentos são de cerca de R$ 100 milhões. O aquário atuará como um centro de educação, pesquisa e conservação dos ecossistemas das bacias dos rios Paraná e Iguaçu. Sua localização será ao lado da entrada do Parque Nacional do Iguaçu. O projeto executivo está na fase final e passando por licenças prévias e de instalação por parte do Instituto Água e Terra (IAT).

O aquário Aquafoz, gerido pelo Grupo Cataratas, terá investimentos de cerca de R$ 100 milhões.
Foto: Grupo Cataratas

Paulo Angeli, Secretário de Turismo, projetos estratégicos e inovação de Foz do Iguaçu, comenta: “Nós vemos uma recuperação do turismo frente à pandemia. Os atrativos e a hotelaria apostaram fortemente na recuperação, não pararam de investir. Além disso, temos uma expansão das lojas francas. Nesse olhar para os novos investimentos, ampliamos a nossa visão para a inovação, pois em todos os segmentos a tecnologia será um dos grandes diferenciais nos próximos anos. Montamos um escritório focado para atender a empresas e novos negócios de turismo com foco em tecnologia e inovação, inclusive com incentivo fiscal”.

Luciano ainda destaca o potencial do turismo no crescimento das regiões de fronteira e que o exemplo de Foz do Iguaçu, que assumiu um movimento de indução e protagonismo no turismo, pode ser irradiado para todas as cidades de fronteira.
“De Norte ao Sul do país são regiões de natureza abundante, biodiversidade, e, na maioria dos casos, tem facilidades de acesso e trânsito entre países – mas, há casos que ainda necessitam avançar em infraestrutura e transporte -. Por exemplo: o arco Sul tem potencialidades de turismo enológico, navegação, pesca esportiva e ecoturismo, além de agricultura sempre abundante, modais logísticos com os países vizinhos e ainda em Foz do Iguaçu todas as possibilidades que ainda existem por meio dos rios que passam pela cidade e pelo Lago de Itaipu. O arco Central da fronteira, juntamente com o arco Sul, se caracteriza pela presença dos estados maiores produtores de grãos do Brasil e do mundo, e se destacam também a agropecuária, sistema cooperativista e navegação. No arco Norte, a biodiversidade, com a ainda ‘desconhecida Pan-Amazônia’, onde há um mundo a ser explorado por meio de pesquisas e ações para a sustentabilidade da população rural e urbana, de forma a gerar renda e agregar valor aos produtos da floresta”.

Expectativa para os próximos anos

Em entrevista concedida ao IDESF, o Ministro do Turismo, Carlos Brito, destacou que em relação à retomada do turismo internacional, especialmente para Foz do Iguaçu, os números pré-pandemia registravam uma média de 6 milhões de turistas estrangeiros por ano e Foz do Iguaçu como um dos destinos mais procurados. “É um número muito aquém de todo o potencial do país, mas há uma meta de dobrar esse número até 2030 de acordo com o Plano Nacional do Turismo”.
Ainda de acordo com o Ministro, “Para começar a alavancar esses números e posicionar definitivamente o Brasil na prateleira dos grandes destinos internacionais, é preciso melhorar a infraestrutura (o que já está sendo feito), promover cada vez mais o Brasil no cenário internacional – que conta com o impulsionamento após a transformação da Embratur em agência – e promover qualificação do setor para atender cada vez melhor esses turistas. E, neste último quesito, cabe destacar que o método Would You Like, lançado pelo Ministério do Turismo, fornecerá noções básicas do inglês para trabalhadores de diferentes segmentos turísticos, melhorando a experiência do turista no país”.

O Ministro do Turismo, Carlos Brito, destacou que, de acordo com o Plano Nacional do Turismo, a meta é o Brasil receber 12 milhões de turistas estrangeiros por ano até 2030. Foto: Embratur

A expansão dos investimentos privados tem sido acompanhada por investimentos realizados com recursos, principalmente, da Usina Hidrelétrica de Itaipu. A grande expectativa do segmento e da população local é a inauguração da Ponte da Integração, que proporcionará mais uma interligação de Foz do Iguaçu ao Paraguai, a Perimetral Leste, que desviará o trânsito de caminhões do centro da cidade e também proporcionará expansão logística para a região. Além disso, também está em curso a licitação para a duplicação da BR-469 (Rodovia das Cataratas), estrada que leva os turistas ao Aeroporto Internacional e às Cataratas do Iguaçu, dentre outros atrativos.

A Ponte da Integração Brasil – Paraguai, em Foz do Iguaçu, atingiu o índice de 80% de conclusão no mês de março e deve ser inaugurada ainda esse ano.
Foto: DER-Paraná
Após anos de elaboração de projeto, liberações e articulações, a duplicação da BR-469, que conta com recursos da Itaipu Binacional, está em fase de licitação.
Foto: Geraldo Bubniak/AEN

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A jornalista Denise Paro registrou, no livro “Foz do Iguaçu – do descaminho aos novos caminhos”, a história de Foz do Iguaçu e alguns dos fatos citados nesta matéria, como a ‘redescoberta’ da vocação turística da cidade.

Foto da capa: Bruno Bimbato, ICMBio.

Texto: Eloiza Dal Pozzo

 

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