Marinha impulsiona Vale do Silício Nuclear

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    Após extrair o Programa Nuclear Brasileiro da Casa Civil para o GSI (Gabinete de Segurança Institucional) – órgão ligado à Presidência da República – através de uma articulação política ainda na gestão Temer por parte do general e ex-chefe do Gabinete, Sérgio Etchegoyen, a Marinha vem conduzindo os avanços do Programa Nuclear Brasileiro (PNB). Em resumo, o programa se traduz no projeto de um Reator Multipropósito e na construção de um submarino com propulsão de urânio enriquecido.

    Atualmente, o Brasil possui um ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, que é almirante, e vê a retomada da Usina de Angra 3 como prioridade. A obra está suspensa desde 2015, em função de escândalos de corrupção envolvendo o ex-presidente Temer e o ex-ministro de Energia Moreira Franco. Além da movimentação indicar uma mudança da matriz energética do país, a Marinha hoje concentra iniciativas nucleares por possuir corpo técnico competente.

    Hoje o mundo possui 442 reatores nucleares funcionando. A China tem 17 em construção, por exemplo, e o Brasil tem quatro reatores de pesquisa. O PNB existe desde a era Vargas, mas só foi aberto à comunidade internacional em 1987, durante o período Sarney, quando o Brasil anunciou que tinha a capacidade de enriquecer urânio. Atualmente, o RMB (Reator Multipropósito Brasileiro), com previsão de conclusão em quatro anos, passa por uma fase de captação de recursos.

    Uma reunião foi feita no último dia 7, no GSI, com diversos ministérios envolvidos para viabilizar parte do montante estimado em U$ 500 milhões para o RMB, movido à urânio e que fará radioativos usados para pesquisa e para a produção de radiofármacos. Estuda-se empregar verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

    Energia barata

    “No momento, [o RMB] está na fase de fechamento do prédio do reator. O projeto é de uma empresa argentina, a INVAP. Há um acordo assinado entre Brasil e Argentina de um reator para cada país”, disse Francisco Deiana, diretor técnico e de operação da Amazônia Azul Tecnologia de Defesa, a Amazul S.A., criada há seis anos para monitorar a costa nacional. Como o Brasil possui a 7ª maior reserva de urânio do planeta, o Brasil estuda os caminhos para exportar o material e entrar na corrida de desenvolvimento de produtos e energia radioativa.

    A União Europeia prevê a conversão de carros movidos a combustível fóssil para a locomoção elétrica até 2030, mas isso só seria possível em escala continental mediante o uso de 100 reatores, segundo informações da Marinha. “Sem energia barata, o mundo para”, afirmou Aldo Malavasi, assessor técnico científico do Centro Tecnológico da Marinha.

    No Brasil, um dos desdobramentos do RMB é produzir radiofármacos para abastecer a cadeia nacional, tanto privada quanto pública. Isto é, há pretensões de destinar produtos radioativos para exames e tratamento de câncer no SUS. “O Brasil importa U$ 20 milhões de radiofármacos por ano para abastecer 430 clínicas e hospitais, mas queremos a autossuficiência”, explicou Wilson Calvo, diretor geral do IPEN (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares).

    Calvo acrescentou que a cidade de Iperó, no interior de São Paulo, será a sede do RMB com dois milhões de m². Planeja-se a instalação de cerca de 20 prédios e até mesmo um acelerador de partículas no polo que vem sendo chamado informalmente de Vale do Silício Nuclear.

    SUS e submarino

    Conforme o presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear, Juliano Cerci, os convênios particulares atendem 25% dos brasileiros e são responsáveis por 70% do atendimento que usa produtos nucleares. Quem faz os outros 30% é o SUS, que atende 75% da população. “Há um abismo de diferença entre essas populações por causa do preço, questões regulatórias e acesso. Na gestão Temer, chegou-se a considerar a extinção do grupo que discute o Programa Nuclear, hoje com 11 ministérios, autarquias e agências reguladoras do país. Agora há vontade política.”

    Já o submarino movido à urânio será feito com recursos garantidos pela Marinha. A data de entrega é incerta porque o projeto leva cerca de 8 anos para ficar pronto, com 200 engenheiros, e aproximadamente 12 anos para ser construído.

    A Marinha garante que, apesar de proteger as águas do costado nacional, a finalidade do submarino não é transportar ogivas nucleares e que AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) faz vistorias surpresas para verificar a segurança dos procedimentos. “O armamento será convencional e o projeto conta com sistemas que protegem o material radioativo para não contaminar nada”, assegurou o Almirante Noriaki Wada.

    Por Caio Luiz/O Destak Brasil

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